Quando e Como a Meditação Vipassana Entrou na Minha Visão de Mundo: Uma História Pessoal
Quem nunca ouviu falar da Ilha de Páscoa e dos lendários Moai? Devido ao seu isolamento extremo, viajar para lá não é fácil. Tive a sorte de visitar a ilha quatro vezes desde 2003 e, ao longo dessas viagens, formei amizades com algumas famílias Rapa Nui.
Os japoneses têm um grande fascínio pela Ilha de Páscoa, e o governo do Japão tem contribuído ativamente para a restauração dos Moai.
Durante uma das minhas visitas, fiquei na casa de um guia local e sua esposa Rapa Nui, Fátima. Juntos, exploramos a ilha em sua van, mergulhando em sua história — embora ele já a conhecesse de cor.
As plataformas onde os Moai estão posicionados são chamadas de Ahu, e é estritamente proibido pisar nelas. No entanto, apesar das placas de aviso, vi muitos turistas subindo nessas estruturas sagradas, especialmente nas áreas mais isoladas.
Certa vez, notei uma jovem japonesa com uma mochila andando perto de um Ahu. Aproximei-me rapidamente e disse em inglês: "Por favor, essas plataformas são sagradas, não suba nelas."
Constrangida, ela desceu imediatamente e respondeu: "Se quiser, pode falar comigo em espanhol."
Fiquei surpreso. Aqui estava uma jovem, com espanhol básico e sem inglês, viajando sozinha pelo mundo. Ela me contou que estava indo para a Europa e, depois, para a Índia.
Uma das experiências que planejava ter na Índia era a Meditação Vipassana. Já havia ouvido falar sobre Vipassana em Mianmar e no Camboja, mas até então não tinha dado muita atenção ao assunto.
Meu Interesse pela Meditação Vipassana
Minha curiosidade sobre a meditação Vipassana se aprofundou depois de ler os trabalhos de Yuval Noah Harari, o intelectual público israelense. Ele fala muito bem da prática, que iniciou a pedido de um amigo. Harari encontrou na Vipassana um método poderoso para clarear sua mente e melhorar seu pensamento. Tornou-se um praticante fervoroso, viajando anualmente à Índia e incorporando a meditação em sua rotina diária.
Harari teve o privilégio de aprender Vipassana diretamente com S. N. Goenka, um professor birmanês de ascendência indiana que foi treinado por um monge birmanês.
Sempre que posso, gosto de ouvir a introdução de Anapana por Goenka, uma meditação guiada de apenas 10 minutos.
Recentemente, encontrei o livro "A Arte de Viver: Meditação Vipassana, conforme ensinada por S. N. Goenka". Ele está disponível como PDF online, mas preferi escutar seu resumo no Blinkist, que apresenta os principais conceitos da obra.
Entendendo o Budismo Além da Teoria
Nenhuma quantidade de estudo substitui a experiência prática. O mesmo se aplica ao Budismo: ele só terá um impacto positivo na sua vida se for praticado diariamente.
Da mesma forma, praticar ioga sem compreender sua filosofia é apenas alongamento. Assim como a filosofia iogue não pertence exclusivamente ao hinduísmo, os ensinamentos de Buda são universais e não estão ligados a nenhuma religião específica.
A principal mensagem aqui é: só é possível obter benefícios do Budismo através da aplicação prática.
Lembro-me do monge budista vietnamita Thích Nhất Hạnh, que enfatizava a importância da atenção plena — estar totalmente presente no momento.
Nos Estados Unidos, vejo muitas pessoas que se consideram espirituais, vão à igreja aos domingos, mas não aplicam os ensinamentos religiosos no restante da semana. A fé deve ser vivida, não apenas pregada.
Nunca me impressionei com pessoas que citam textos religiosos enquanto levam vidas hipócritas — especialmente certos pastores que voam em jatinhos particulares. Nunca li as escrituras do cristianismo, judaísmo, islamismo ou hinduísmo, mas sempre valorizei bondade, empatia, generosidade, humildade e integridade — qualidades que meu amigo catari, Ahmed, certa vez me lembrou serem muito mais importantes do que dinheiro, títulos ou diplomas.
Desapego: O Caminho para a Liberdade do Sofrimento
Muitas vezes ouvimos a frase: "Liberte-se do sofrimento." Mas quais são suas origens? O sofrimento vem da sociedade, da cultura ou da nacionalidade?
Quando era médico residente em Melbourne, refleti profundamente sobre o desapego e fiz uma lista das coisas das quais precisava me libertar, nesta ordem:
- Nacionalidade – Muitas vezes, a importância de um passaporte se resume à cor da capa.
- Profissão – Muitas pessoas se definem pelo que fazem, e não por quem são.
- Identidade física – Nossa pele, corpo, gênero e aparência.
Nos últimos anos, as divisões baseadas em raça, casta e identidade só aumentaram. Não busco privilégios nem sofro com apego a essas classificações.
Ao abrir mão do apego, também se abre mão da aversão, que é o outro lado da mesma moeda.
Uma vez, ouvi um imigrante bósnio dizer: "Eu amo a América." Senti pena dele. Seja uma boa pessoa, independentemente de estar na Argentina ou no Iêmen. Se quiser emigrar para a Austrália ou o Canadá, vá, se puder — mas não deixe que a identidade defina seu valor.
Para muitos, desapegar-se da família é difícil. No meu caso, minha própria família tomou essa decisão ao me enviar para a Austrália. No fim, foi a melhor coisa que me aconteceu — permitiu que eu me tornasse meu próprio indivíduo, em pensamento e ação.
Ame, mas sem apego.
A Descoberta de Buda: A Mente em Fluxo
Buda percebeu algo que os físicos modernos só descobririam séculos depois: nada é permanente.
Ele concluiu que o universo é composto por kalāpas, partículas indivisíveis que surgem e desaparecem constantemente. Isso significa que nossos corpos estão em fluxo contínuo, assim como a física moderna revela que somos feitos de partículas subatômicas sempre em movimento.
Além disso, Buda identificou quatro processos fundamentais da mente:
- Consciência
- Percepção
- Sensação
- Reação
Vipassana nos ensina a observar as sensações sem reagir, interrompendo o ciclo do sofrimento.
Para aliviar o sofrimento, torne-se menos apegado — a si mesmo e ao mundo.
O Declínio do Budismo na Índia
Um capítulo pouco conhecido da história intelectual da Índia é como o Budismo, apesar de ter nascido lá, foi quase completamente erradicado do país.
Recomendo fortemente o livro "O Fim do Sofrimento", de Pankaj Mishra, para quem deseja entender melhor essa questão.
O Budismo se tornou popular na Índia, ameaçando a ordem bramânica, que dependia de rituais religiosos para manter sua influência. Centros de aprendizado budista, como Tanjore (Thanjavur) no sul da Índia, atraíram monges do Sri Lanka, Mianmar e Sudeste Asiático. Curiosamente, as escritas birmanesa, laociana, tailandesa, khmer e balinesa se assemelham ao tâmil — talvez não por coincidência.
Conclusão
Vipassana nos ensina que libertar-se do ego e do apego é a chave para a verdadeira paz.
Espero que este ensaio seja útil para aqueles que desejam iniciar sua jornada na meditação. O mestre só aparece quando o aluno está pronto.
Escrevi este texto pensando em MCA, do Brasil. Sou grato a MCY, de Kuala Lumpur, minha melhor amiga na Ásia, e seu companheiro, Fernando.
E, claro, no meu mundo mágico, sempre há outros:
Maqroll. La petite poète de côte sauvage. Sr. Carlos em seu terno de linho e óculos Ray-Ban.